Os Miseráveis

Um fato histórico...
Durante 73 dias, a cidade sitiada, dominada pela Comuna mobilizada para a guerra, enfrentou o exército. Brigadas de operários e suas mulheres, as petroleuses, numa resistência desesperada, deslocavam-se pelas avenidas e ruas incendiando os prédios públicos. Num repente, os miseráveis que Victor Hugo imortalizara no seu gigantesco romance (Les misèrables, 3 volumes com 2.800 páginas, que, desde 1862, vendera sete milhões de exemplares!), rebelados, tentavam "tomar o céu de assalto". Milhares de Jeans Valjeans, na companhia das Fantines e das pequenas Cosettes, assistidas pelo moleque Gavroche, um minúsculo herói das barricadas - personagens da grande epopéia literária do proletariado francês -, haviam ocupado as ruas de Paris preparando-se para o embate final. O poeta, ainda na Bélgica, impotente, deprimiu-se. Logo ele que tanto apostara nos Estados Unidos da Europa. Não só alemães lutaram contra franceses, como esses, agora, brigavam entre si.

Glória
imorredoura
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O
menino Gavroche
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Por essas e
outras é que 700 mil pessoas desfilaram em frente a sua residência na avenida
Eylau (hoje Victor Hugo) ao ele completar 79 anos, em 26 de fevereiro de 1881.
Nem Napoleão vira tanto povo assim do seu palanque. A sua casa tornou-se local
de romaria de gente do mundo inteiro. Até um poema sobre o Brasil ele compôs
para o imperador D. Pedro II. Nada em matéria de multidão equiparou-se ao seu
enterro quando, no dia 31 de maio de 1885 (ele falecera no dia 22), partindo do
Arco do Triunfo onde seu modesto ataúde estava exposto, um milhão de franceses
se irmanaram pelos Campos Elísios para levar o féretro de Père Hugo até
o Panteão. Nos seus 70 anos de atividade ele fizera de tudo: foi par da França,
membro da
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A pequena Cosette
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Academia de
Letras, deputado, exilado político, militante anti-bonapartista, integrante do
senado e o escritor mais famoso e mais popular das letras francesas em todos os
tempos. Além de célebre defensor da abolição da pena capital e emérito
ativista das causas populares. Dizem que no delírio que antecedeu a morte, ele
gritou "esta é a luta entre o dia e a noite". Pode ter sido a chegada
da noite para ele, mas para a França, que agora celebra o bicentenário do
nascimento do seu maior poeta, ocorrido em Besançon em 26 de fevereiro de 1802,
Victor Hugo vai ser sempre a luz do dia.
O clássico Os miseráveis,
do escritor francês Victor Hugo, foi chamado de "um dos maiores
best-sellers de todos os tempos". Em 1862, nas 24 horas seguintes à
publicação da primeira edição de Paris, as 7 mil cópias foram todas
vendidas. O livro foi publicado simultaneamente em Bruxelas, Budapeste, Leipzig
(na Alemanha), Madri, Rio de Janeiro, Rotterdam e Varsóvia. Depois, a obra foi
traduzida para quase todas as línguas do mundo. No século XX, Os miseráveis
se tornou filme e musical da Broadway.
Trecho da obra de Victor Hugo:
(...)
Jean Valjean achava-se pois no esgoto de Paris.
Outra semelhança de Paris com o mar. Como no oceano, o mergulhador pode nele
desaparecer.
A transição era inaudita. Jean Valjean saíra da cidade mesmo no meio dela e,
num abrir e fechar de olhos, no tempo de levantar e abaixar uma tampa, passara
da luz do dia para a completa escuridão, do meio-dia para a meia-noite, do
tumulto para o silêncio, do turbilhão dos trovões para a estagnação do túmulo;
e, por uma peripécia muito mais prodigiosa ainda do que a da rua de Polonceau,
do extremo perigo para a segurança absoluta.
Permaneceu alguns segundos como atordoado, estupefato. A bondade celeste
tinha-o, de certo modo, surpreendido por traição. Adoráveis emboscadas da
Providência!
Mas o ferido não fazia o mínimo movimento, e Jean Valjean não sabia se o que
então levava às costas era Mário ou um cadáver.
A sua primeira sensação foi a cegueira. Repentinamente, deixou de ver.
Pareceu-lhe que num minuto ensurdecera. Não ouvir já coisa alguma. A frenética
e homicida tempestade que se desencadeava alguns metros acima dele não lhe
chegava, como já dissemos, ao ouvido, senão muito confusamente, e como um
rumor saído de uma profundidade graças à espessura de terra que o separava
dela. Adiantou com precaução um pé, temendo que se lhe deparasse um buraco,
desaguadouro ou um abismo; e convenceu-se de que o lajedo se prolongava.
Contudo, podia-se penetrar naquela muralha de nevoeiro, e forçoso era fazê-lo.
Jean Valjean lembrou-se de que a grade, descoberta por ele debaixo das pedras,
podia-o ser também pelos soldados e que tudo dependia de um tal acaso. Podiam
também descer ao cano e revistá-lo. Não havia um minuto a perder. Depusera Mário
no chão, tornou a pô-lo às costas e meteu-se ao caminho. Entrou resolutamente
naquela escuridão.
(...)
